Uma vila inteira de São João do Araguaia, no sudeste do Pará, abriu a torneira e viu a água sair limpa, forte e sem hora para acabar.
Não era só água chegando, era o fim de um tempo de bacia na cabeça, de roupa manchada e de caminhadas até o rio.
Na Vila Apinajés, a espera por esse momento foi longa. E, para entender o que ele significa, basta olhar para os varais.
O branco desapareceu dali; a água deixava qualquer tecido claro com tom alaranjado e, por isso, Maria de Luci aprendeu a escolher só roupa de cor. “Branca, nunca”, lembra.
Se a água fazia aquilo com o tecido, o estrago em quem a bebia era ainda maior, pois era a mesma que ia para a panela e para o copo.
A professora Maria do Espírito Santo acredita que foi assim que surgiu a úlcera que tratou durante três anos. Foram consultas, remédios e muita oração até vir a cura. “Pra honra e glória do Senhor, estou curada”, garante.
Foi para fugir dessa água que muitas mulheres desciam até o rio para lavar o que a família vestia.
A professora fez esse caminho mais vezes do que consegue contar. Saía com a trouxa equilibrada no alto e um filho pequeno encaixado no quadril, chegava à margem e se agachava ali, esfregando peça por peça enquanto o sol queimava as costas e a criança pedia colo. A volta era pior, com tudo molhado e mais pesado. “Quantas vezes eu não saí daqui assim”, conta, como quem ainda sente aquele peso no pescoço.
Histórias como a dela fizeram a comunidade cobrar uma solução e o pedido acabou nas mãos do deputado federal Keniston Braga, que destinou emenda no valor de R$ 559.595,00. A obra saiu do papel e, hoje, todas as casas do lugar recebem água encanada, contínua e tratada.
Na terça-feira (22), quando o deputado visitou a vila ao lado da prefeita Marcelane, encontrou moradores reunidos em volta da caixa d’água para lhe agradecer. “Tem gente que pode pensar que é só água, mas não é. Foi uma luta de muitos anos; ele ouviu a gente e cumpriu a palavra”, afirma Maria do Espírito Santo.
Na casa dela, a rotina ganhou um som novo, o da água correndo na pia. Ela lava a louça, estende o lençol na sombra do quintal e molha as plantas. As horas que antes se perdiam naquele caminho agora têm destino certo. “Sobra até tempo pra gente assistir aos doramas”, diz rindo.
Lá fora, uma camisa branca balança ao vento, limpa, como Apinajés sempre sonhou.












